22 de junho de 2010

VASO QUEBRADO

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Eu só fui Vaso quando me quebrei. Caco por caco, despencando de mesas, despencando de prateleiras altas. Sem medo, sem polidez, sem o pó religioso que quer me manter intacto. Vasos foram feitos para se quebrar. Vasos foram feitos de barro e barro foi feito pra alguém moldar.


Deus compara pessoas com vasos. Deus sabe que somos vazios. Deus tem conteúdo pra tudo. Não esqueça isso.
E que os cacos se quebrem e se espalhem por não conseguirem conter tanta grandeza, tanta novidade, tanta palavra boa. Deus é incontido, é grande demais para pequenos potinhos, caixinhas antigas, gavetas emperradas, cofres travados. E todos nós somos Vasos a beira de uma queda maravilhosa. Quem pode medir o amor de um coração que se quebra? Quem pode medir a capacidade de se espalhar quando os cacos estão no ar?

Pra você que anda lascado, remendado, colou com superbonder e ficou feio: suas feridas sararão com um remédio que você não conhece. O antídoto do medo é a liberdade. O contrário da dor não é só a cura, mas é abrir-se para ela. Ouça o barulho do barro no chão, ouça alguma coisa ferindo o silêncio, porque o seu silêncio só manteve vazios, e essa não é exatamente a melhor forma de levar a vida, quando sabemos que ainda há espaço para mais.

Quebre-se. Se o vaso não funciona, quebre e deixe o artista fazer outro. De uma vez por todas, ou por milhões de vezes. Não tenha medo de se quebrar para ser melhor.

Seu conteúdo transbordará de um jeito que você ainda não sabe como, mas não precisa saber, porque você é Vaso. Você recebe e fornece. Você precisa sentir a água enchendo, e depois a água ultrapassando as bordas e os limites. E às vezes você precisa quebrar-se inteiro, para ser refeito e perder a água velha, os restos. Você foi feito para viver cheio, ainda que para isso, você tenha que esvaziar-se, quebrar-se.
Quem já foi refeito sabe. E só quem modelou tudo, é capaz de dizer a verdadeira utilidade para isso tudo.
E isso tudo, é você.
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